
Quatro em cada dez mulheres no Brasil já deixaram de aceitar um emprego ou oportunidade profissional devido a dificuldades de deslocamento. A pesquisa “O Direito de Ir, Vir e Viver”, realizada pela consultoria Indique em parceria com a Think Eva e a 99, expõe um cenário preocupante onde a segurança, o custo e o tempo de trajeto se tornam obstáculos intransponíveis.
Essa realidade afeta não apenas a carreira, mas também a vida social e o bem-estar. Mais da metade das entrevistadas já deixaram de comparecer a compromissos de trabalho ou recusaram convites por motivos semelhantes. Além disso, uma parcela significativa desistiu de capacitações, incluindo a faculdade, evidenciando o impacto direto da mobilidade na busca por desenvolvimento.
Os dados, coletados com 564 mulheres de diversas regiões do país, reforçam que a **insegurança e a violência** são os principais impedimentos, seguidos pela falta de dinheiro e pela precariedade do transporte público. Essa pesquisa, divulgada em parceria com a Think Eva e a 99, revela um Brasil onde o simples ato de se deslocar pode ser um fator limitante para a conquista de direitos e oportunidades.
Insegurança e custo: Os maiores vilões da mobilidade feminina
A **sensação de insegurança** é o fator mais citado por 32% das mulheres, levando muitas a evitar determinados bairros e a planejar seus horários meticulosamente para minimizar riscos. A falta de dinheiro aparece em segundo lugar, com 22% das menções, enquanto a precariedade do transporte público (15%) e a longa distância dos locais de destino (14%) completam o quadro de desafios.
Para se proteger, 63% das entrevistadas já deixaram de usar determinado meio de transporte e 60% optaram por rotas alternativas. Um relato chocante é o de uma mulher que, após ser assaltada diversas vezes no ônibus, precisou desistir de cursar uma graduação federal por não conseguir chegar a tempo ao campus, demonstrando como a falta de segurança no transporte impacta diretamente o acesso à educação.
Assédio sexual: Uma constante nas viagens femininas
O **assédio sexual** é uma realidade assustadora, com 89% das mulheres relatando já terem sido vítimas em algum tipo de veículo. Ônibus (68,8%), deslocamentos a pé (60,8%) e metrô ou trem (50,2%) são os locais onde essa violência é mais frequente. Mesmo opções como carros e motos por aplicativo, que as deixam menos vulneráveis, ainda registram casos.
A pesquisa aponta que 80% das mulheres utilizam carros por aplicativo, mesmo que para 67% delas, especialmente em áreas periféricas, o custo seja mais elevado. Essa dependência reflete a falta de alternativas seguras e eficientes para seus deslocamentos diários.
A Relação entre renda, mobilidade e cuidados
A **renda** é um fator determinante no acesso a diferentes modais de transporte. Mulheres de baixa renda (80,3%) utilizam ônibus regularmente, enquanto o carro próprio é mais acessível para as de alta renda (40,6%). Essa disparidade acentua as desigualdades e limita as oportunidades para muitas.
A carga de **trabalho de cuidado**, historicamente atribuída às mulheres, também influencia suas rotinas de deslocamento. Muitas precisam conciliar trajetos casa-trabalho com idas a escolas, consultas médicas e farmácias, o que leva 44% delas a escolher o veículo com base nessas responsabilidades. Carros por aplicativo são acionados por 53% quando transportam dependentes, evidenciando a necessidade de soluções de mobilidade que considerem essas demandas.
Desafios estruturais e a busca por soluções
Um levantamento realizado entre junho e julho de 2026, com 564 mulheres em diversas capitais e cidades brasileiras, revelou que 68% não possuem veículo próprio e 52% gastam mais de uma hora por dia em deslocamento. Quase metade avalia as condições de mobilidade de seus bairros como piores que as do centro da cidade, e 33% consideram o transporte público de sua região ruim ou péssimo.
As organizações Indique, Think Eva e 99 buscam, com esta pesquisa, trazer luz a esses desafios e fomentar discussões sobre planejamento urbano, direito à cidade, mobilidade feminina e desigualdades territoriais. A busca por um **transporte seguro e acessível** é fundamental para garantir que mais mulheres possam exercer plenamente seu direito de ir, vir e viver com dignidade e oportunidades.
Fonte: Redação com Agência Brasil





