Operação Contenção: ONG Internacional Revela Falhas Críticas na Investigação de Mortes no Rio de Janeiro

ONG Internacional Detalha Falhas na Investigação da Operação Contenção no Rio de Janeiro
Um relatório divulgado pela organização não governamental internacional Human Rights Watch (HRW) aponta graves falhas na investigação das mortes ocorridas durante a Operação Contenção, realizada há um ano nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. A operação resultou em 122 mortes, sendo 117 civis e cinco policiais.
A investigação, que abrange quase 9 mil páginas de procedimentos, laudos de necropsia e imagens de câmeras corporais, revela uma série de irregularidades e a ausência de medidas básicas de investigação e perícia. A HRW entrevistou testemunhas, familiares e pesquisadores para embasar suas conclusões, destacando a necessidade de uma apuração mais rigorosa e transparente.
Conforme divulgado pela Human Rights Watch, a investigação oficial das mortes de civis ainda não foi concluída, apesar de indícios de ilegalidades e excessos por parte das forças policiais. O relatório aponta que, até o momento, apenas as mortes dos cinco policiais foram investigadas, resultando em 12 indiciamentos.
Polícia Ignora Procedimentos Essenciais de Investigação
Um dos pontos mais críticos levantados pela HRW é a falta de adoção de medidas investigatórias por parte dos policiais logo após as mortes. O Departamento Geral de Homicídios e Proteção Pessoal, responsável pela apuração, soube da operação informalmente uma semana antes, mas não tomou providências preparatórias. Equipes de perícia da Polícia Civil foram convocadas, mas nunca chegaram a ser enviadas ao local da operação.
A ausência de perícia no local dos fatos é um dos principais focos da ONG. Corpos foram recolhidos por policiais e moradores sem a presença de peritos, o que comprometeu a coleta de evidências. Em muitos casos, os corpos ficaram expostos por horas, iniciando o processo de decomposição e dificultando o trabalho dos legistas. A HRW enfatiza que nem mesmo áreas que poderiam ter sido preservadas com mais facilidade, como o interior de residências, foram resguardadas.
Manipulação de Câmeras Corporais e Indícios de Execução
O relatório da Human Rights Watch também aponta para a possível manipulação das câmeras corporais dos policiais. Das 117 mortes de não policiais, nenhuma foi registrada pelas câmeras. Há indícios de que alguns agentes ocultaram seus equipamentos ou os retiraram das fardas em momentos cruciais da operação, como durante tiroteios ou dentro de residências. Além disso, muitas câmeras tiveram suas baterias esgotadas antes do fim da operação, com gravações interrompidas ou com lacunas significativas.
Dados estatísticos apresentados pelo relatório sugerem indícios de execução. Cerca de 60% dos mortos foram alvejados com quatro ou mais tiros. Em 71% dos casos, as vítimas apresentavam perfurações em dois lados do corpo, e em 34%, em três lados. Do total de 117 civis mortos, 12% foram alvejados pelas costas, e 85% tinham pelo menos um ferimento nessa região. Há relatos de testemunhas e familiares indicando que pessoas estavam se rendendo e, mesmo assim, foram mortas por policiais.
Investigações em Andamento e Falta de Resposta das Corporações
A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro informou que as investigações sobre as 117 mortes seguem em andamento pela Delegacia de Homicídios da Capital. Segundo nota oficial, foram colhidos 242 depoimentos e analisados 553 laudos periciais nos últimos 12 meses, com diligências prosseguindo e a realização de outros 105 exames. O trabalho é acompanhado pelo Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
A Agência Brasil entrou em contato com as polícias Civil e Militar para comentar a Operação Contenção. A Polícia Militar declarou que não concederia entrevistas sobre o assunto. A Polícia Civil não respondeu ao pedido da reportagem até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para posicionamentos das corporações.





