Identidade Parda no Brasil: A Cor do Meio, Construção Histórica e Luta por Reconhecimento em Documentário da TV Brasil

A Cor do Meio: Como a Identidade Parda é Construída e Vivida no Brasil
O programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, lança luz sobre a fascinante e multifacetada construção da identidade parda no Brasil. A edição, intitulada A Cor do Meio, mergulha nas raízes históricas e nas manifestações contemporâneas dessa identidade que abrange uma vasta gama de tons de pele, origens e culturas.
Com entrevistas que reúnem especialistas, acadêmicos, pensadores e cidadãos comuns, a atração busca desvendar as nuances que definem o ser pardo no contexto social brasileiro. A reportagem aborda desde as origens da classificação até os desafios atuais de reconhecimento e representatividade.
Os dados do Censo de 2022 revelam que mais de 90 milhões de brasileiros se autodeclararam pardos, representando uma parcela significativa da população. A Região Norte se destaca nesse cenário, concentrando a maior parte dessa população, onde também há uma forte presença indígena. Conforme informação divulgada pela TV Brasil, a reportagem investiga essa intersecção.
A Construção Histórica e a Influência Colonial
A formação da identidade parda no Brasil está intrinsecamente ligada à história colonial, conforme apontam especialistas. Gersem Baniwa, professor da Universidade de Brasília, sugere que, especialmente na Região Norte, a identidade parda pode ser uma forma de adaptação e sobrevivência para grupos indígenas, visando evitar opressões e massacres.
Nesse sentido, o filósofo e líder indígena Ailton Krenak classifica a distinção de cores como um “truque colonial”. Segundo ele, a disputa sobre quem é pardo, preto, branco ou indígena foi uma estratégia política para negar direitos territoriais, uma vez que “pardo não reivindica território”.
Desafios Educacionais e o Papel das Ações Afirmativas
As estatísticas indicam que pretos e pardos são os grupos que mais abandonam os estudos antes do ensino superior. No entanto, as ações afirmativas, como as cotas raciais, têm sido fundamentais para mudar essa realidade, garantindo vagas para pretos, pardos, indígenas e quilombolas em instituições de ensino e concursos públicos.
A assistente social Luiza Carvalho relata experiências de preconceito desde a infância, ligadas à cor de sua pele. Apesar das dificuldades e do cansaço em sua jornada acadêmica, ela concluiu o doutorado, sendo a única mulher parda em sua turma de seleção. “Se isso não diz nada para a sociedade, sabe? Não é sobre ter vagas apenas. Mas é sobre quem consegue chegar a fazer essa seleção”, reflete Carvalho.
O Conceito de Pardo e a Inclusão nas Políticas
Helio Santos, presidente do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais, defende que as políticas inclusivas devem considerar a elasticidade do tom de pele dentro da categoria parda. “Quando a pessoa tem uma dúvida, significa que ela deve ser incluída. Porque eu não tenho nenhuma dúvida quando estou diante de um branco”, afirma.
A historiadora Ana Flávia Magalhães complementa que a categoria parda foi historicamente constituída para “esvaziar o ingrediente africano e indígena”. Ela ressalta que o racismo se perpetua no Brasil através de um “pacto de silêncio” sobre as questões raciais, mesmo que todos compreendam o significado da cor e da origem no país.
Luta por Direitos e a Importância da Educação Antirracista
O pesquisador Gustavo Amora precisou recorrer à justiça para garantir seu direito de ingresso em um concurso público por meio de cotas raciais, após ter seu pedido indeferido em banca de heteroidentificação. Sua mobilização, junto a outras centenas de pessoas, pressionou por mudanças nos processos de heteroidentificação.
A educação antirracista é apontada como um caminho essencial para a mudança. Na escola pública em Ceilândia, Distrito Federal, conteúdos sobre a cultura afro-brasileira e africana são trabalhados durante todo o ano. A orientadora educacional Eliane dos Santos enfatiza a necessidade de efetividade, não apenas de novas leis.
Atividades lúdicas e educativas buscam ensinar às crianças que não existe apenas uma cor de pele, promovendo o orgulho da própria identidade e o respeito à diversidade. “É muito transformador, dá esperança para a gente ver que é uma geração diferente e faz valer a pena o trabalho da gente”, conclui Eliane.
O programa Caminhos da Reportagem – A Cor do Meio foi exibido na segunda-feira (31/8), às 23h30, na TV Brasil, com reprises e disponibilidade online.




