Porto Alegre: Marcha e Encontro de Quimbandeiros combatem intolerância religiosa e preconceito contra matrizes africanas

Porto Alegre se une contra a intolerância religiosa com eventos de Quimbanda
A luta contra a intolerância religiosa ganha força nas ruas de Porto Alegre neste sábado (15), com a realização da 3ª Marcha dos Quimbandeiros e do 19º Encontro Internacional de Quimbandeiros. Os eventos, liderados por Pai Ricardo de Oxum, presidente da Sociedade Beneficente Cultural Oxum e Oxalá, visam combater o preconceito e dar visibilidade às religiões de matriz africana.
A iniciativa surge em um estado que, apesar de ter o maior percentual de seguidores de religiões afro-brasileiras no país, também registra altos índices de intolerância religiosa. Pai Ricardo de Oxum relembra que o encontro nasceu justamente da necessidade de expressar a fé livremente, sem medo de retaliações e preconceitos.
Dados do Censo Demográfico 2022 do IBGE apontam o Rio Grande do Sul com 3,19% de adeptos da Umbanda e Candomblé, seguido pelo Rio de Janeiro (2,58%). O evento busca transformar a capital gaúcha em um polo de referência nacional e internacional para praticantes da Quimbanda, abrangendo Brasil, Uruguai e Argentina.
Raízes da intolerância e a força da resistência
O Encontro Internacional de Quimbandeiros, em sua 19ª edição, teve início há quase duas décadas como uma resposta direta ao preconceito vivenciado no Rio Grande do Sul. Pai Ricardo de Oxum relata que, na época, era comum a perseguição por quem manifestava sua fé publicamente, como acender uma vela em uma esquina, resultando em abordagens com racismo e preconceito.
A intolerância religiosa também se manifesta em países vizinhos. Pai Ricardo aponta que na Argentina, o preconceito contra terreiros é explícito, com a polícia confiscando instrumentos sagrados ao menor sinal de denúncia. No Uruguai, a intolerância também é presente, enquanto no Chile, a religião enfrenta dificuldades para evoluir devido ao preconceito.
Desmistificando Exu e Pomba-Gira
A Quimbanda, uma das expressões espirituais afro mais significativas no Rio Grande do Sul, tem particularidades que são alvo de preconceito, especialmente em relação às entidades Exu e Pomba-Gira. Pai Ricardo explica que essas entidades atraem uma parcela significativa da comunidade LGBTQIA+, o que gerou um estigma adicional.
A marcha tem como objetivo mostrar que Exu e Pomba-Gira são entidades que promovem o bem, sem distinção de gênero, podendo se manifestar em qualquer pessoa. No ano passado, a marcha reuniu cerca de 2 mil pessoas, com carros de som, cantos de pontos e cartazes contra a intolerância religiosa, um momento importante para compartilhar experiências e denúncias.
Pai Ricardo de Oxum esclarece que Exu e Pomba-Gira são mensageiros que tiveram suas trajetórias humanas, atuando em um campo astral para o bem, seja no amor ou na família. Ele enfatiza que o mal reside na cabeça humana, e não nas entidades divinas.
Marco Histórico e Combate ao Racismo Religioso
O Encontro em Porto Alegre contará com um espaço cedido pela prefeitura, um marco histórico conhecido como “Rótulo da Quimbanda”. Ali foi erguido o primeiro monumento de Exu a céu aberto no Brasil, há cinco anos. Pai Ricardo de Oxum, um nome de destaque no batuque gaúcho, dedica mais de três décadas à preservação das tradições afro-brasileiras.
A urgência no combate à intolerância religiosa é reforçada pelos dados do Disque 100. Um levantamento do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania revelou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Dentre os casos com religião identificada, as de matriz africana são as mais afetadas, com 228 denúncias na Umbanda e 161 no Candomblé, evidenciando o racismo religioso estrutural.
Pai Ricardo de Oxum ressalta a importância de desmistificar figuras como Exu, citando como exemplo positivo o desfile da escola de samba Grande Rio em 2022, com o enredo “Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu”. A representação de Exu pelo ator Demerson D’Alvaro ajudou a mostrar que a entidade não é o diabo, mas sim um orixá próximo dos humanos, com acertos e erros, elucidando sua complexidade para o público.
O desfile, que conquistou o primeiro título da escola no Grupo Especial do Rio de Janeiro, foi crucial para que muitas pessoas conhecessem Exu sob uma nova perspectiva. A narrativa de que Exu é o orixá mais próximo de nós, singular em suas ações, contribuiu significativamente para desmistificar a figura tão perseguida.
A 3ª Marcha e o 19º Encontro ocorrem em um contexto de atuação constante de Pai Ricardo na promoção do diálogo inter-religioso, como o ato em homenagem a São Jorge realizado em parceria com a Igreja São Jorge de Porto Alegre.




